segunda-feira, 6 de agosto de 2012

MINHA TIA

10 anos de idade. Minha mãe me levou para visitar minha tia Maria, lá no Rio de Janeiro. Conheço muitas Maria´s, mas essa era Maria Lúcia. Minha mãe me contou que minha tia Lúcia foi embora porque seu grande amor havia se casado com outra mulher e que com isso minha tia ficou muito triste e chorou por vários dias até decidir ir embora para o Rio. Minha tia trabalhava o dia todo enquanto seu marido e sua única filha ficavam em casa. Ela era doméstica e chegava sempre no final da tarde muito cansada. Lembro que toda vez quando ela chegava em casa, ela ia até o quarto trocava de roupa e passava direto para a cozinha para fazer a janta que também já ficava para o almoço do outro dia. Enquanto a janta estava no fogo ela aproveitava para limpar a casa. Eu não entendia por que sua filha e o seu marido ficavam parados! Uma noite ela chegou e não aguentou fazer nada, somente deitou na cama. Ela disse que estava com dor de cabeça e dor nos pés. Eu falei para ela que sabia fazer uma massagem nos pés e perguntei se podia fazer nela para ver se ela melhorava do cansaço e das dores. Meio sem jeito ela disse que sim. Minhas mãos pequenas percorriam as histórias que aqueles pés já haviam vividos. Às vezes ela sentia pequenas dores quando eu a tocava. Ela ficava a maioria do tempo com os olhos fechados. _Tia! Posso lhe fazer uma pergunta? Ela abriu os olhos. _Pode. _Mas eu gostaria que a senhora me falasse a verdade. _Tá bem. Eu falo. _ A senhora é feliz? Ela me olhou nos olhos com seus olhos cor de mel. Deu um pequeno sorriso meio sem jeito. Demorou um pouco a responder. _ Nunca fui. E chorei junto com ela.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

LÁ TE MÚSICA, VÓ?

7 anos de idade. Da morte eu só sabia que colocavam a gente dentro de uma caixa grande e que a gente ficava lá sem poder sair, tudo escuro, embaixo do chão, sem poder respirar. Isso me assustava toda vez que eu pensava! E quando eu pensava demais na morte eu chorava, chorava, chorava até ficar vermelho e minha avó vir me consolar. Minha garganta doía. Ninguém mais conseguia me acalmar a não ser minha avó, também chamada Maria. Ela sentada na cama da minha mãe, colocava minha cabeça em suas pernas e passava suas mãos já cansadas em meus cabelos: _ Não chore, meu filho. Não tenha medo da morte. Meu filho ainda é novo e isso ainda vai demorar. Quando chegar sua hora você vai só dormir, Deus vai pegar na sua mão e vocês vão brincar lá no céu. _ Lá tem música, Vó? _ As suas prediletas. E eu acabava pegando no sono ela cantando uma canção de ninar.

sábado, 28 de julho de 2012

DESCONHECENDO-SE (CRÔNICA)

E complexamente, ou simplesmente, ele caminhava sem entender o que se passava em sua cabeça: eram pensamentos estranhos numa noite mais estranha ainda que a escuridão que havia em sua mente. E ele, ele caminhava desconfiado de si. Resolvera que iria ser diferente, nem tanto porque quisera, e sim por conta do sistema que o incentivava, lhe obrigava, enlouquecia-o! Ele não era nada daquilo que sempre demonstrou ser e seus falsos princípios foram vencidos por não conseguir mudar todos aqueles e aquilo que ele tentou penetrar, convencer de que suas teorias eram certas... (incertas teorias) Ele se julgou vencido, desestimulado, acabado; mas não tão assim, a ponto de chegar frente a um bar e pedir uma cerveja, sabor nunca antes apreciado, e bebê-la, tomá-la, engoli-la, chupá-la com tanto sabor amargo de fracasso. E seus pensamentos girando inconformados de não-razões, de falsos entendimentos, de não compreensões do mundo, de si, da vida... E quanto mais ele pensava, mais ele bebia para esquecer suas ideias e aquele gosto amargo da cerveja que diziam ficar doce depois do quarto copo. - Um cigarro! Pediu ele, tomando como exemplo um amigo que adorava carlton, para ver se sua amargura e solidão não entendível passavam, mas até ali não passavam. Era uma vontade de sorrir, de gritar, de pular, de derrubar todos aqueles cascos de cima da mesa, derrubar todas aquelas cadeiras e mesas que estavam à sua frente e depois correr, correr sem destino... Só que ele estava preso, preso dentro de si, sozinho, sem ninguém para lhe escutar, sem ninguém para ouvir suas verdades tão falsas por tanto escondidas (ocultas). - E ele bebe? E fuma? - diz um conhecido desconhecido, ao vê-lo. - Sim! Eu bebo e fumo! Desde sempre! Vocês não me conhecem. Nunca me conheceram. Nem eu me conheço... Nem eu. E o conhecido desconhecido se vai desconhecendo o conhecido. Já eram seis cervejas, agora embaixo da mesa, postas pelo garçom; uma ainda pela metade em cima e cinco cigarros a menos na carteira. Ele já estava embriagado, talvez nem tanto da bebida e sim do espaço, do tempo em que vive, dos “amigos”, da mente que há tempos mentia... Paga-se a conta. Nos bolsos da bermuda: o celular e os cigarros; na mochila: a carteira com o pouco dinheiro que sobrara, por desconhecer o preço de uma noite solitária; na cabeça: sonhos inacabados, inacabáveis... Em seu caminhado, costurando ilusões nas ruas do Piauí, de Teresina, do centro da cidade, na Frei Serafim, ele vai... Vai em busca do nada e do tudo, do todo repartido em nada. Complexamente, ou simplesmente, ele vai caminhando na avenida sorrindo... Sorrindo por ter sido, por uma noite, o que nunca foi e o que nunca gostaria de ser; sorrindo da sua desgraça aliviadora; sorrindo bêbado da noite sem luz e sombria que lhe assolava os olhos castanhos sem brilho virados para o alto; sorrindo do banco de madeira que lhe aguardava naquele momento (1:38 h.), em plena Frei, onde deitou-se para aliviar o cansaço das pernas curtas, do corpo, do espírito. E ao encostar-se na cama improvisadamente desconfortável, vieram mais sorrisos, sorrisos de sono, de dor, de sucesso por uma noite cheia de fracassos questionados, sorrisos de não-sei-quem-sou, sorrisos de um desconhecido: eu. E por fim, ele dormindo ali, sozinho, abraçado por aquele banco que tem por pretensão lhe proteger na vaga noite escura, que pretende fazê-lo descansar e sonhar... Sonhar com o quanto foi bom se conhecer desconhecendo-se. Autor: Jean Pessoa (Em homenagem a Cléverson Rodrigues)

CRÔNICA - ESPUMA BRANCA

-Só mais um! -Só esse e pronto! -Mais um, por favor! -Mais um! E ele não se contentava. Eram goles rápidos, sem pausa, de uma vez só. -Mais um! E todos se perguntavam: - O que há? Ninguém sabia responder. Não sabiam nem se havia algum problema ali. Será que havia? Havia ali, sim, um sorriso depois de cada gole. Esses sorrisos... Aqueles sorrisos...? Felicidade? Seria? Será? E o passado? Minutos atrás, o que teria visto? O que teria acontecido? Felicidade? -Me darias uma moeda para saber? Só que ele não contava. Ele estava feliz. Aparentemente feliz! Mas os que o “conheciam” não sabiam se isso era verdade, já que ele mente quem é, ou será que fala a verdade quanto a ele mesmo!? -Só mais esse copo, aí eu paro. E sua alma reluzindo. Que cor era aquela áurea? Ninguém conseguia decifrar. Talvez: %#$*& + 1¨!5*& = tristeza, ou até mesmo: sorrisos, goles + 7*&52@# = felicidade, por estar com “amigos”, por estar com a namorada, por estar pensando em algum ídolo, querendo estar com ele. Por que sua presença era bacana? Por que seu sorriso era duvidoso? Por que ele é tão legal? E por que ficamos curiosos com sua felicidade estranhamente estranha? Será que estamos mesmo amigos a ponto de nos preocuparmos com os “problemas” um dos outros, mesmo que esse problema não seja logo identificado como um problema e sim apenas pela desconfiança de um comportamento estranho, que antes, quando não amigos, nunca seria identificado? Será que estamos amigos, unidos, conhecendo-nos? Será que vale a pena? O que estaria acontecendo com os pensamentos de todos àquela noite, naquela mesa, ao ver aqueles risos banhados por aquele líquido amarelo que descia garganta abaixo, desconhecendo o caminho tão pouco, ou quase nunca habitado? -O último e pronto, então eu paro! Dizia ele à sua namorada. E foi o que ele fez: bebeu o último copo de espuma branca sem fazer careta, sorriu, pagou sua parte e se foi... Foi, deixando todos a fazerem apostas quanto a sua vida, sua noite, sua relação, seus sentimentos, sobre ele. Só que ninguém tinha moedas para pagar pelos seus pensamentos e todos ficaram ali, questionando-se, pensando até o ponto de esquecerem o que estavam tentando decifrar e mudarem de assunto. E ele, de longe, olhou mais uma vez para trás onde a pouco estava sentado e sorriu, lembrando das cervejas que ficaram no passado e dos seus amigos que ficaram sem respostas. Autor: Jean Pessoa (Em homenagem a Cléverson Rodrigues)

sexta-feira, 27 de julho de 2012

TEXTO CURTO - O ASSALTO

GLEYCE – ÚNICA FUNCIONÁRIA DE UMA FARMÁCIA. SARDINHA – ASSALTANTE.
( 7 horas da manhã. Gleyce colocando umas moedas no caixa.) Sardinha – (com um revólver em mãos) Mãos para o alto. Isso é um assalto! Gleyce – Assalto? Sardinha – Isso mesmo que você ouviu, sua piranha. Isso é um assalto. Gleyce – Mas, o que é que o senhor quer? Sardinha – Ora, o que é que eu quero! Eu quero a grana do caixa. Vamos passa, passa tudo, vai! Senão você leva chumbo na cara. Gleyce – Não! Péra aí, seu moço! O senhor quer dinheiro? Sardinha – Você é surda, é minha filha? Eu quero a grana do caixa. Vamos passa tudo para cá, vai! Gleyce – Mas meu senhor, crie vergonha nessa sua cara! O senhor sabe que hora é essa? São 7 horas da manhã. O senhor acha que tem dinheiro neste caixa aqui uma hora dessas? Nem aqui, nem em nenhuma farmácia que eu conheça te dinheiro uma hora dessas. Sardinha – Tu tá tirando onde com a minha cara, é? Tu ta querendo morrer, é? Passa logo essa bufunfa, que eu já to me irritando Gleyce – Moço, se minha vida for depender do dinheiro que tem aqui, acho melhor o senhor me matar. Eu abri a farmácia agorinha e estava aqui contando as moedas para passar os primeiros trocos. Como é que pode o senhor vir roubar aqui uma hora dessas! Aqui não é açougue para ter dinheiro uma hora dessas da manhã. O senhor não tem costume, não? Sardinha – Eu to perdendo a paciência. Se você não me der essa grana agora, eu não respondo por mim, sua vagabunda! Gleyce – O senhor ta ficando doido? Só pode! Quantas vezes eu vou ter que lhe dizer que não tem dinheiro aqui neste caixa uma hora dessas da manhã? Só tem moeda! O senhor quer as moedas? Se o senhor quiser eu lhe dou! Mas vou logo dizendo que moeda tem poucas. Agora, se o senhor quiser levar remédio, pode levar que eu não me importo. Mas o dinheiro que o senhor tanto quer não tem. Como é que pode! Essa hora não é hora de ladrão nenhum roubar ninguém, não, seu moço. Volte aqui mais tarde, pode voltar que tem, volte lá para as 6 da noite que eu deixo o senhor levar tudo. Mas uma hora dessas, por favor, ninguém merece! Sardinha – Olha, sua doida, você quer levar um tiro? Se quer diz logo. Minha pressão já tá subindo aqui e eu já to ficando nervoso. Gleyce – Sua pressão tá subindo? Meu Pai do céu, seu moço! Não vá morrer aqui perto de mim, não. Eu detesto ver defunto. Péra aí que eu vou pegar aqui um remédio que é o mesmo que meu pai usa lá em casa. Só um instante. Sardinha – Traz logo que eu to passando mão. Gleyce – (Voltando com o remédio e um copo d`água) Tome, seu moço. Tome todinho. Aí quando sua pressão voltar ao normal o senhor volta a me assaltar, tá certo? Sardinha – Deixa só eu melhorar aqui um pouco. Gleyce – Eu vou esperar, hein! Sardinha – Pode esperar. Vai ser rápido. (Sardinha dorme) Gleyce – (ao telefone) Alô! É da polícia? É que tem um assaltante aqui na farmácia que eu trabalho. Vocês poderiam vir aqui prendê-lo? Não, não precisa ter pressa! Ele está sobre o meu controle. (Olhando para o Assaltante) Remédio pra pressão! E eu sou lá besta! Esse sonífero vai fazer você dormir até os policiais chegarem. (rir)

TEXTO CURTO - AH, TÁ!

GEYSE - SOBRINHA DE 29 ANOS. BALBINA – TIA DE 42 ANOS. (Tarde de domingo. Tia e sobrinha chegam de uma bebedeira com mais quatro cervejas em mãos para terminar a folia na casa da própria sobrinha. Vão direto para a cozinha gargalhando e comentando sobre os acontecimentos do dia anterior. Elas sentam e abrem a primeira bebida.) Balbina – Ai, que eu num “güento”! Geyse – Eu também num “guento”! Balbina – Mermã, mais lá tava bom demais. Geyse - Tu acredita que a podre da Socorro veio pra mim e disse que o boy na festa de ontem queria era ela? Balbina – Mentira! Geyse – Verdade verdadeira! Ela disse que só não ficou com ele porque estava esperando você se decidir se ia querer ele ou não. Balbina – Mas meu Pai! E eu já tenho até esse poder de decidir com que homem eu vou ficar! Pois pronto, eu num guento! Eita que eu to é podendo! Na verdade é que ele não queria ela mesmo, muito menos eu. Geyse – (desconfiada) E quem é que ele queria de verdade? Balbina – Hum, não se faça de sonsa, não. Pensa que eu não percebi? Ele dançava com a gente, mas ficava só de olho na senhorita. Ganhou o boy, hein, querida! Vi até vocês conversando em alguns momentos. Geyse – Eita, mais tu não perde uma, hein? Balbina – Mas é claro, querida! Não perco mesmo! E aí, me conta o que há? Geyse – Nada, só conversamos mesmo normal. Balbina – Humm! Geyse – Marcamos de nos encontrar amanhã à noite. Ele até que é legal! E tu viu, mermã, como ele é altão? Balbina – Ai, deve ter um pau enorme. (As duas gargalham.) Balbina – Mermã, mermã! Eu já estou é bêbada. Geyse – Vamos beber só essas quatro e pronto, aí a gente vai dormir e a noite a gente sai de novo para beber mais. Babina – Ai, que eu num guento! Acaba não mundão! (As duas se abraçam ainda sentadas nas cadeiras e gargalham. Já estão na segunda cerveja e bastante bêbadas.) Geyse – Ai, que eu te amo, minha tia! Balbina – Eu também te amo, minha prima cachaceira. Geyse – Olha, não vai se esquecer que quando a gente acordar a gente vai lá para o bar do Zuca, viu? Balbina – E tu acha que eu esqueço cachaça. Onde tem cachaça eu to no meio. (risos) Sim, tu viu, mermã, a Malu votou naquela candidata que a nossa família toda detesta. E ela é minha sobrinha e tua prima, como que ela pode fazer isso com a gente? To decepcionada. Geyse – Ah, Balbina, mas não tem nada haver isso aí! O voto é livre e ela pode votar em quem ela quiser, mesmo que a família toda vote no candidato que a gente votou. Balbina – Mas mermã, como é que ela pôde votar naquela candidata se a família toda trabalha na prefeitura do nosso prefeito. E se ela perder o emprego, como é que ela vai ficar, hein, bonita? Geyse – É, você tem razão, mas eu gosto dela e eu apoio a decisão que ela tomou. Balbina – Deixa de ser babona, Geyse. Tú também trabalha na prefeitura. Tu tem que babar é o nosso prefeito. Se ele souber que ela votou na oposição ela vai perder é o contra-cheque dela e se souberem que tu anda defendendo ela, tu vai perder o teu também. Geyse – Ave, e agora eu não posso mais nem abrir minha boca pra falar dessa prefeitura daqui. Eu mesmo que não vou babar prefeitura nenhuma. Eu trabalho para esse prefeito, mas o salário ta atrasado, as ruas estão um caos, nada aqui está prestando. Balbina – E o dinheiro dessa cerveja que tu ta bebendo vem da onde, hein? Da prefeitura, querida! Se tu ta achando ruim trabalhar lá, então sai. Geyse – Eu não vou sair não! Pelo que eu to vendo tu que é babona desse prefeito. Balbina – Do prefeito, não! Eu sou babona do meu trabalho. Eu não sou burra de trabalhar num lugar e votar para outro. Só sendo doida, mesmo! E a Malu foi muito foi burra mesmo. Se ela perder o emprego dela eu não vou dizer nada. Geyse – Mermã, num fala assim dela, não! Tu ta sendo arrogando demais. Balbina – Mas é verdade mesmo. Ela foi muito foi burra! E se o candidato dela perder, hein, ela vai se lascar todinha! Geyse – Ah, mas ela tem as coisas dela. Ela é formada, é professora e eu já estou quase terminando meu curso e vou ser professora também. Se nós sairmos de lá a gente tem para onde ir, agora tu não. Tu não tem nem o ensino médio completo e trabalha como zeladora. (Batendo nos peitos) Eu sou professora. Balbina – Deixa de ser babona da Malu, Geyse! Só porque ela tem carro é? Tu fica falando que vocês duas são professoras, mas o salário de vocês tão atrasado 3 meses, enquanto o meu nunca atrasou esse tempo todo que eu trabalho na prefeitura. Tu é muito é babona dela mesmo! Geyse – Ta atrasado porque a droga desse prefeito não presta, ele é um escroto! Balbina – Não fala dele assim, não, mulher! Geyse – Eu falo. Tu num ta falando da Malu? Balbina – Eu falo dela mesmo. Ela é uma traíra da nossa família e do nosso prefeito. E tu é uma babona. Geyse – Teu problema é que tu só quer ser a dona da razão. Quer sempre ficar por cima dos outros. Não aceita a opinião dos outros. Mas nós somos professoras! Balbina – E o meu salário ta em dias. E quem pagou essas cervejas todas que tu bebeu hoje foi o meu salarizim de zeladora, sua babona da Malu. Geyse – Ah, mermã, tu só quer dá a ultima palavra. Acho melhor tu calar a tua boca! Balbina – Tu que tem que calar essa tua boca! Geyse – Tu que tem que calar! Balbina – Vamos ver quem vai calar aqui. Geyse – Tu que tem que calar! Balbina – Ah, ta! Geyse – Ta! Balbina – Então ta! Geyse – Então ta! Balbina – Ah, ta então! Geyse – Ta! Balbina – Ta! Ta! Geyse – Ta! Ta! Ta! Balbina – Ta!Ta!Ta!Ta!Ta! Geyse – Então ta! Balbina – Ta! Geyse – Ta vendo como você só quer dá a ultima palavra. Vai se fuder! Balbina – Não manda eu me fuder que eu sou sua tia! Geyse – Vai se fuder! Balbina – Olha que eu dou um tapa na tua cara! Geyse – (batendo com o casco da cerveja na mesa, sem quebrá-lo.) Pois dá! Dá! Balbina – Menina, o que é que tu tem? Tu ta é doida é? Tá é possuída? Geyse - (ainda batendo com o casco da cerveja na mesa, sem quebrá-lo.) É tu, Balbina, que só quer ser, só quer se aparecer, fica aí falando dos outros. Olha aqui prá ti. (dando o dedo para ela.) Balbina – Menina, tu ta é doida é! Oh, aqui prá ti! (faz gestos com o braço, dando banana para ela.) Geyse – (levantando-se zangada com o casco na mão.) Tá vendo, tu só quer ter razão, só quer ser melhor que os outros. A gente faz uma coisa e tu quer fazer uma maior. Balbina – É tu que é babona, abestada, babona mesmo! Fica do lado dela, vai, fica! Babona! Olha aqui o que tu mereçe, sua abestada. (dá mais uma banana para ela.) Geyse - Mermã, não me dá banana, não! Balbina – Dou, porque é isso que tu merece, sua banana! Geyse – Pois olha aí o que tu merece! (joga a garrafa na cabeça da Balbina que desmaia sangrando.) (Noite. Balbina, com um curativo na cabeça, volta do hospital, encontrando-se com Geyse na porta de casa.) Balbina – (sorridente) E aí, bonita! Que cachaça foi essa? Geyse – Não sei, mermã! Balbina – E então, vamos sair? Geyse – Vamos. Eu tava só te esperando.

TEXTO CURTO - A ORAÇÃO

MARIA – (30 anos) MÃE DE LUCAS LUCAS – (8 ANOS) FILHO DE MARIA (Anos 90. Lucas voltando da escola, com um amigo. Sua mãe o espera na porta de casa.) Maria – Entra agora mesmo para dentro de casa. (Lucas entra apressado, seu amigo vai embora) Maria – Por que é que você estava caminhando daquele jeito, ao voltar da escola, hein Lucas? Lucas – Que jeito, mãe? Maria – Até a sua madrinha que estava comigo na porta de casa fez um comentário infeliz sobre você e saiu logo. Lucas – E o que foi que eu fiz desta fez? A senhora sempre me fala coisas que eu não entendo. Maria – Você estava vindo muito alegre da escola com esse seu colega de turma. Lucas – E o que é que tem, mãe? Eu não posso ficar alegre, não? Maria – Não. O que foi que você viu hoje na escola para voltar desse jeito feliz e ainda volta com um amigo? Você pensa que eu não vi, junto com a sua madrinha, você vindo todo se quebrando, rebolando, parecendo uma bichinha. Até ela comentou que você estava parecendo uma garotinha, vindo feliz com o namoradinho. Lucas – Eu não to entendendo, mãe. Maria – Me diz agora, Lucas. O que é que você quer da sua vida, hein, menino? Por quê que você veio rebolando, hein? Você quer ser é bicha, é? É isso que você quer ser? Isso não é de hoje, Lucas. Há dias, ou melhor, há meses que eu falo com você sobre isso, sobre seu jeitinho estranho. Todo mundo já anda comentando! Lucas – Comentando o que, mãe? O que é que eu to fazendo de errado? Maria – Não se faça de sonso, Lucas. Você já tem oito anos e já entende muito bem o que eu estou falando. Olha só, menino! Olha pra mim aqui no fundo dos meus olhos e me diz se tu gosta é de homem? Tu quer ser é veado, é? Me diz! Lucas – (chorando) Não, mãe! Eu não quero ser não! Eu nem sei o que a senhora tá falando! Eu tava caminhando normal. E se eu tava caminhando estranho, não foi por querer. Mas eu tava caminhando normal, mãe. Me desculpe, por favor, me desculpe! Maria – Olha nos meus olhos, Lucas. Você sabe muito bem que seu pai trabalha nas estradas, naquele caminhão dele, não sabe? Lucas – Sei. Maria – Pois olha pra mim e responde: Você quer que seu pai morra de acidente, se você estiver mentindo pra mim. Lucas - Eu não estou mentindo, mãe. Eu não quero que ele morra. Maria – Você jura que está falando a verdade, pelo seu pai mortinho? Lucas – Juro, mãe. Eu não tava rebolando. Eu não sou bicha. Eu nem sei o que é isso. Maria – Olha, olha! (o telefone toca e ela sai para atender) Lucas – (pega uma imagem de Jesus Cristo que estava em sua mochila e começa a rezar) Meu Jesus Cristo, eu estou falando a verdade. Eu não rebolei, eu vinha caminhando normal com meu amigo. Agora estou com medo, minha mãe fez eu jurar por uma coisa que eu nem sei o que é. Eu, Lucas, te digo senhor, eu não sou essa bicha que ela fala. Eu não sei o que é isso. E te peço uma coisa: não deixa meu pai morrer de acidente, não. Eu o amo, e amo o Senhor também, meu Jesus. Obrigado por me ouvir; eu confio no Senhor. (põe a imagem no bolso) Maria – (voltando meio chorosa) Adivinha quem era no telefone? Lucas – Quem, mãe? Maria – Não me chame de mãe, seu mentiroso. Acabaram de me ligar dizendo que seu pai sofreu um acidente e morreu na hora. Lucas – (chorando) Não, mãe. Eu não menti! Eu juro. Maria -(dá um tapa na cara de Lucas) Pegue suas coisas e vá embora da minha casa agora. Eu não quero mais te ver na minha frente, seu mentiroso. Lucas – Não, mãe! Eu não menti! Maria – Eu vou lá para o meu quarto. Quando eu voltar não quero mais você dentro desta casa. (sai) Lucas – (tirando a imagem de Jesus do bolso) A Partir de hoje nunca mais vou sorrir.

TEXTO CURTO - XINGA XINGA DA ESTRELA

CARLOS – Namorado de Ana. ANA – Namorada de Carlos e irmã de Antônia ANTÔNIA – Irmã de Ana. BRUNO – Amigo de Carlos e Valentina. VALENTINA – Amiga de Carlos e Bruno. (Bruno e Valentina chegam à casa de seu melhor amigo, Carlos, onde está acontecendo uma festa.) CARLOS – Sejam bem-vindos, Meus caros amigos Valentina e Bruno! Deixa aqui eu apresentar o pessoal. Essa de preto é minha namorada Ana. A do lado dela é minha cunhada Antônia. VALENTINA E BRUNO – Prazer. CARLOS – E esses são os meus melhores amigos, Bruno e Valentina. ANA – Prazerzão! Olha só, fiquem a vontade a casa é de vocês! Tem bebida e comida a vontade. CARLOS – Faço dela as minhas palavras. Vamos entrando que o lema de hoje é se divertir e se divertir muito. Eu vou pegar umas bebidas para vocês, tudo bem. BRUNO - Sim, claro. Estamos morrendo de sede, não é Valentina? VALENTINA – Sim, claro. Eu quero uma cerveja. BRUNO – E eu um Hi-Fi, pode ser? Adoro vodka! CARLOS – Mais é claro que pode. Você acha, meu amigo, que eu ia esquecer da sua vodka. Só se eu tivesse tido um surto de amnésia. Vamos comigo pegar as bebidas deles, minha namoradinha linda do meu coração? ANA – Vamos, meu amorzão! O que é que você não pede chorando que eu não faça sorrindo? CARLOS – Nada!(rindo) Você sempre faz tudo! Quanto a você, Antônia, poderia fazer companhia a eles até a gente voltar. ANTÔNIA – Tá! Mais vê se não demora. (Carlos e Ana saem.) BRUNO – E aí, seu nome é Antônia, não é? ANTÔNIA – É. BRUNO – Ah, sim! E o que você está achando da festa? ANTÔNIA – O diabo desta festa não tá prestando pra nada, essa porra! Esse “carai”! BRUNO – (para Valentina) Você ouviu o que ela me respondeu? Valentina – Sim. BRUNO – (para Antônia que está ao celular) E você já bebeu muito aqui, hoje? ANTÔNIA – Mermão! Eu já bebi esses diacho ” tudim” que tem aí. O diabo da vodka, da montila, a merda de Uisque, até a desgraça da mangueira eu já bebi. Tô com meu cú fazendo bico de tanto beber e essas pestes não me deixam bêbada. BRUNO – Minha gente! Tá ouvindo, Valentina. Acho que essa menina não é normal, não! VALENTINA – Tô ouvindo. BRUNO - (para Antônia que está ao celular tentando falar com alguém.) Eita, que esta ligação deve ser muito importante. Você não desgruda desse telefone! ANTÔNIA – Hum! Essa buceta nem presta. Faz é hora que eu tento fazer a desgraça de uma ligação e essa pica não dá certo. Eu tô para jogar a porra desse “carai” na parede prá ele se quebrar todim. Eu já tô zangada e com a cabeça dos meus dedos cheios de calo de tanto discar a porra desses botões aqui e não dá certo. Aquele veado deve tá dando é o“oi” do cú dele, pra não me atender até essa hora. Ah, mas quando ele atender eu vou mandar só ele tomar no cú, bem no “oim”, pra ele aprender a tratar uma mulher com educação. BRUNO – (para Valentina) Que coisa doida é essa! Essa mulher xinga demais, minha gente! Tá ouvindo? VALENTINA – Tô, Bruno. BRUNO – (para Antônia) Sim, quem é essa pessoa que você está tentando ligar? ANTÔNIA – É a desgraça do meu namorado. Esse corno não me atende, essa “misera”. Mas ele me paga! Quando eu tiver dando pra todo mundo aqui da festa, aí ele vai achar ruim! BRUNO – Menina, não faz isso não! Acho melhor você parar de beber um pouco e tentar dançar pra ver se passa mais o efeito dessas bebidas... ANTÔNIA – Mas eu não quero que a porra desses efeitos dessas bebidas passem. Eu quero é ficar mais bêbada ainda. Eu quero é me lascar todinha, me estrepar, passar mal na desgraça desta festa que não está prestando pra nada essa “misera”. BRUNO – Essa menina é doida mesmo, Valentina! Escuta só o que ela está falando. Ave, aí xinga! Valentina – Que coisa chata, Bruno! Eu já sei que ela está xingando há horas! BRUNO – Antônia, acho melhor você tirar o seu celular de cima dessa mesinha, senão você vai acabar esquecendo e alguém pode roubar. ANTÔNIA – Quem é que vai roubar essa porra? Essa merda não presta pra nada! Só presta pra me dar prejuízo, essa “misera”! O veado que roubar essa desgraça bem aqui, tá é “fudido”! BRUNO – Valentina, já chega, essa menina xinga demais! Não é normal, não, uma coisa dessas! Você está ouvindo isso tudo? VALENTINA – Ave Maria, Bruno! Eu já te falei que estou ouvindo há horas esses xingamentos dela. Quantas vezes eu vou ter que te repetir isso? Coisa chata! Vê se me deixa ficar olhando para o povo na festa em paz! Bruno – Tá bom! Tá bom! Não está mais aqui quem falou, sua estressadinha! (para Antônia) Ou, ou, ou, o que é que há? Não fica com essa cabecinha baixa, não, que é danado para vomitar. ANTÔNIA – Eu acho que não estou bem! BRUNO – Pois levanta essa cabeça, vai! (levando a cabeça dela) Acho que ela está mal, Valentina. VALENTINA – Levanta a cabeça dela que eu estou aqui olhando para alguns boys e não posso desviar minha atenção. (Bruno vira-se para Antônia, que vomita em sua cara, o encharcando.) VALENTINA – Olha só o que você fez com meu amigo, sua xinga-xinga da estrela! Vomitou ele todinho. (Valentina dá um murro na cara de Antônia, que cai no chão. Chegam Carlos e Ana.) ANA – O que aconteceu aqui? Por que minha irmã está no chão? BRUNO – Porque ela vomitou em mim manchando toda a minha rouba! Então a Valentina deu uma porrada na cara dela. E como eu não pude descontar nela o que ela fez comigo, eu vou descontar em você. (dá um soco na cara de Ana, que desmaia.) CARLOS – Você está louco, Bruno! Eu não vou deixar você bater na minha namorada assim desse jeito! (dá um soco na cara de Bruno, que desmaia.) VALENTINA – Me desculpe, Carlos, mas o Bruno é meu amigo a mais tempo e eu não posso deixar isso assim! (mete um chute nas partes intimas de Carlos, que cai no chão sentindo dor.) Agora sim eu posso olhar os boys mais de perto sem ninguém para me encher o saco. (passa por cima de todos e vai para a pista de dança) ANTÔNIA – (ainda no chão) Alguém pode me dar a porra de um gelo para eu por na “misera” deste olho roxo? Ah, mas antes eu quero mais uma dose de Rum! Ai, que inferno.

TEXTO CURTO - A LUZINHA

(20:30. LENA E LUÍS SOBEM EMPOLGADOS EM UM ÔNIBUS INTERMUNICIPAL PARA UMA VIAGEM. SENTAM-SE EM POLTRONAS LADO A LADO) LUIS – Estou doido para chegar logo. Me disseram que a cidade é linda! LENA – Me disseram também que é uma viagem muito cansativa, pois só de ônibus são 11:00 de viagem. Meus pés vão ficar inchados. Então é melhor a gente apagar essa luzinha aqui em cima das nossas poltronas e dormirmos até chegar lá.(APAGA A LUZ) LUIS – Tu tá doida! (ACENDENDO A LUZ) Deixa de frescura, Lena, pois a bicha aqui sou eu. (RIEM) Nós vamos é conversar. Vamos, me fala, como anda teu namoro? LENA – Está ótimo. Pense num nêgo bom de cama. E ainda por cima é super carinhoso. Ai, amiga, se melhorar estraga. LUIS – Humm, já vi que esse negócio vai longe. Homem bom de cama e carinhoso hoje em dia é coisa rara. Tá para nascer outro. Fiquei até com uma invejinha branca da senhora. LENA – Mas não fique não, pois a senhorita já tem o seu namorado, não tem? LUIS – E desde quando bicha namora. Bicha se enrola, se enrosca, se lasca. (riem) Ai, não nasci para namoro. Terminei, sabe! Enjoei! Peguei ele me traindo dentro do guarda-roupa com minha irmã. LENA – Mentira! LUIS – Verdade verdadeira. LENA - Mas o Roger não é bicha? LUIS – É mermã, mas é daquelas bichas doidas que não sabem o que quer. Além do mais minha irmã tem espírito de rapariga, na verdade ela é rapariga mesmo. Não dispensa nem bicha. Oh mania besta essa de rapariga querer ficar com bicha. Parece que elas querem provar para as bichas que podem transformá-las em homens. Humm, me dá um nojo! LENA – E você fez o quê com eles? LUIS – Nada demais! Só dei um tapa na cara dela e uma dedada bem no meio do olho do cú dele. (RIEM) LENA – Fala baixo, seu diacho. O povo pode escutar. LUIS – Escuta nada, já estão todos dormindo. Lena, tu trouxe algum biscoito aí na tua mochila? To morrendo de fome. LENA – Trouxe. Pega aí, já que tu está na poltrona do corredor. Tá aí em cima. (LUIS SE LEVANTA, PEGA A MOCHILA E SENTA-SE NOVAMENTE. ELE ACENDE A LUZINHA QUE FICA ACIMA DAS POLTRONAS PARA PODER ENXERGAR MELHOR.) Encontrou? LUIS – Tá aqui. Humm, de chocolate, hein? Só lembrando do negão! LENA – Abestado. LUIS – Quer um? Se você quiser eu te dou do meu biscoito de chocolate do negão? LENA – Deixa de ser besta, seu besta! E é claro que eu quero, já que o biscoito é meu. LUIS – Agora é nosso. (COMEM) Sim, qual foi o roteiro que você fez para o nosso passeio lá na cidade? LENA – Quem tá preparando o roteiro são os meus primos. Conhecendo eles como eu conheço dá até para adivinhar o roteiro: bar, riacho, peixe assado e muita música. Vou te apresentar vários boys primos meus, viu Luís! LUIS – Comecei a gostar! Quero um bem gato e gostoso que me pegue de jeito e me chame de Beyonce. (RIEM EXAGERADAMENTE. UMA MULHER QUE ESTÁ SENTADA NA POLTRONA DA FRENTE SE INCOMODA.) Mulher – Dá para apagar a luz? (Os dois fingem que não escutam.) Dá para apagar a luz agora? Eu estou falando com vocês. Apaguem essa luz! (LUIS APAGA. SILÊNCIO POR ALGUNS MINUTOS.) LUIS – (FALANDO BAIXINHO) Meu Pai! Por que mesmo que eu apaguei esta luz, hein, Lena? Oxe, essa luz é nossa. Nós pagamos as nossas passagens estamos sentados em nossas poltronas e acendemos a luz que está em cima das nossas cabeças. Aí vem uma mulher metida a rica e fina e manda a gente apagar a luz e a gente apaga. Que diacho é isso!? Meu Pai, que raiva! Eu tenho raiva é que na hora que acontece essas coisas eu fico parado, anestesiado e não consigo dizer nada. Ai, que raiva de mim! LENA – Eu também fico anestesiada. Minha irmã, se estivesse aqui, na mesma hora teria uma resposta na ponta da língua para essa mulher. LUIS –Eu to fervendo por dentro. Ela falou isso não foi por causa da luzinha que estava incomodando, não. Ela falou isso é porque a gente tá conversando aqui, feliz e ela deve tá incomodada. Ela não pediu para a gente apagar a luzinha, Lena;ela mandou e a gente obedeceu. Ela tava ouvindo nossa conversa e se incomodou. Ai, que raiva, que ódio, que tudo de ruim eu to por dentro. Eu acho que vou explodir de raiva! _Apague essa luz. (imitando a mulher) Que ódio! Eu podia não ter apagado. LENA – Deixa isso para lá, vai, Luís. Vamos dormir que é melhor. Todo mundo no ônibus já está dormindo. LUIS – Deixa ela, deixa. (LENA SE VIRA PARA UM LADO E TENTA DORMIR. LUIS FICA PENSANDO.) Essa mulher vai me pagar. Olha ela, olha. Ajeitando o cabelo como se nada tivesse acontecido. Mas deixa ela, deixa. Eu só quero que ela acenda essa luzinha dela, agora. Deixa ela acender que ela vai ver, deixa. Eu não durmo enquanto ela não acender essa luz. Eu não vou dormir. (LENA DORME A HORAS E LUÍS JÁ ESPERA A BASTANTE TEMPO, ATÉ QUE A MULHER ACENDE A LUZ. LUÍS LEVANTA-SE COMO QUE AUTOMATICAMENTE.) Pode apagar essa luzinha agora mesmo! MULHER – O que? LUIS – Isso mesmo que a senhora ouviu. Pode apagar essa luzinha agora mesmo, pois ela está me incomodando. (LENA ACORDA) LENA – O que está acontecendo? LUIS – Essa mulher que acendeu a luz e me incomodou. Eu estava dormindo aqui na minha poltrona e ela acendeu a luz e me acordou. Mulher – Mas eu vou pegar algo em minha bolsa. Além do mais a luz está sobre minha poltrona, portanto eu posso liga-la. LUIS – Ah e pode? Então quer dizer que a nossa a gente não pode acender e a sua a senhora pode? Ou a senhora é dona de todas as luzes que estão neste ônibus? Só pode ser, pois quando acendemos a nossa luzinha a senhora MANDOU a gente apagar. Nem sequer fez questão de pedir um favor, mandou logo foi apagar. Agora pode apagar a que está em cima da sua poltrona, pois ela está me incomodando, sua mal educada. Tá pensando que é o que? Que é rica, fina? Se fosse rica não tava aqui andando de ônibus, tinha mesmo era fretado um carro. E ainda quer mandar nas luzinhas dos outros. Se eu e minha amiga pagamos passagens, nós temos o direito de apagar e acender a luzinha a hora que a gente quisesse, mas o seu problema não era com a luz e sim com nossa conversa, não era? A senhora não tem um negão, não é? Nem biscoito do negão, não é?A senhora não é feliz! A senhora não tem um macho para a senhora. Tá com inveja porque minha amiga tem um negão para ela e a senhora não tem nenhum e fica querendo acabar com a felicidade alheia. Aposto que nem rica é. Deve tá passando fome. MULHER – Eu vou chamar o motorista se você não calar essa sua boca. LUIS - Pois chama. Pode chamar. MULHER – Olha só o que você já fez! Acordou todo mundo! Que vergonha. LUIS – E eu to lá me importando! Eu quero mais é que todos acordem mesmo. Agora a senhora tá com vergonha, não é? Mas na hora de MANDAR aqui em mim e na minha amiga, deixando a gente envergonhado e sem ação, você não ficou com vergonha, não foi? MULHER – Eu vou chamar o motorista. (SAI) LUIS – Pois vai! Vai logo, vai. LENA – E agora, Luis? Ela vai chamar o motorista. LUIS – Deixa ela, deixa! Deixa que eu já to louca, pior que a Shakira! (UM DOS MOTORISTAS VEM ACOMPANHANDO A MULHER ATÉ OS DOIS AMIGOS.) MULHER – É esse aqui, seu motorista, que esta me ofendendo só porque eu acendi a luzinha para pegar algo na minha bolsa. Ponha ele para fora do ônibus agora. LUIS – Me por para fora do ônibus! A senhora está completamente louca. Quem deve sair de dentro deste ônibus é você, sua vagabunda! MULHER – Está ouvindo, seu motorista, como ele está me ofendendo. MOTORISTA – O que é isso, rapaz! Assim vou ter que te tirar de dentro do ônibus. LUIS – Oh meu amor, se tem uma pessoa que tem que sair de dentro deste ônibus é essa ladrona que está do seu lado. Sabe por que? Tá vendo esse senhor dormindo aqui do lado da poltrona dela? Ele está drogado! MOTORISTA- Drogado? LUIS – Sim. Enquanto esta mulher pensava que todos estavam dormindo, eu fiquei só observando ela oferecendo para ele um comprimido para dor de cabeça. Depois disso ele dormiu profundamente e ela roubou todo o dinheiro que havia na bolsa dele e colocou na própria bolsa. Ela tá cheia de comprimidos para dormir e de drogas na bolsa, sem falar no dinheiro que ela roubou dele. Podem verificar se quiser. MOTORISTA – Minha senhora, isso é verdade? MULHER – Claro que não. LUIS – Claro que é. Olha aqui.(tomando a bolsa da mulher e tirando tudo de dentro.) Estão vendo como ela tá cheia de remédios e de dinheiro.) MULHER – Mas isso é tudo meu e do meu pai que está aqui dormindo. Eu dei o remédio dele para ele poder dormir, já que ele sofre de insônia. LUIS – Mentirosa! (DÁ UM TAPA NA CARA DELA.) Ele nem é seu pai. Vamos, seu motorista, tire essa ladra de dentro do ônibus que eu não quero viajar com pessoas assim. MOTORISTA – É, minha senhora, acho que a senhora terá que se explicar com a polícia. MULHER – Deixa eu acordar meu pai aqui e vocês verão quem é realmente o mentiroso desta história. (ELA TENTA ACORDAR O SENHOR DO LADO, MAS ELE ESTÁ DOPADO E CONTINUA A DORMIR.) LUIS – Tá vendo como ela dopou ele? (DÁ OUTRO TAPA NELA.) Como é que pode, fazer um negócio desses com um idoso! Crie vergonha. Opa, ei seu motorista, nossa parada é a próxima. Precisamos descer. Vamos Lena. Cuide dela, viu seu motorista. Não deixe ela sair, não. (ÔNIBUS PARA. LUIS E LENA PEGAM SUAS MOCHILAS E DESCEM DO ÔNIBUS.) LENA – Luís, estou toda me tremendo. Nós estávamos sentados próximos a uma ladra. O que aconteceu com aquele senhor poderia acontecer com a gente. LUIS – Lena, acho melhor a gente sair correndo. Daqui a pouco o pai da mulher acorda e vai sobrar pra gente. LENA – O que? LUIS – Rumbora, mulher, que o mentiroso aqui dessa história toda sou eu.

TEXTO CURTO: SURPRESA

SURPRESA!
Felipe – Ator/ 25 anos Junior – Estudante de biologia/ 19 (Um casal gay jantando em um restaurante comemorando aniversário de namoro.) Junior – (empolgado) Estou tão feliz por estarmos comemorando nosso 1 ano e 6 meses de namoro. E nesse nosso aniversário de namoro eu tenho uma grande surpresa para você. Felipe – (Meio desanimado) Surpresa, é? Junior – Se anima meu amor. Eu sei que você vai adorar a “surprise”! Felipe – Mas eu estou animado e também estou muito feliz pelo nosso níver de namoro. Junior – Hum! Nem parece. Sua cara está dizendo tudo. O que está acontecendo? Felipe – Nada. Junior – Conta, vai. Felipe – Não é nada demais! É coisa minha. Junior – É coisa nossa. Hoje estamos completando 1 ano e 6 meses de namoro e você com essa cara. Temos que estar felizes, os dois. Não é todo dia que vemos um casal gay completar esse tempo todo de namoro. Todos os outros acabam sempre no primeiro mês, ou mais tardá em 3 meses, por conta das farras e traições que são descobertas. Mas nós, não! Nós vamos ficar juntos para sempre, sem traições, sem brigas sem nada. Vamos trocar para sempre juras de amor, não é meu amor? Felipe – Sim. Junior – Então diga que me ama. Felipe – Eu já disse isso ontem para você. Junior – Mas eu quero ouvir todo dia, toda hora, todos os minutos e segundos e até através de mensagens do celular, Orkut, MSN, tudo, tudo, tudo! Quero ouvir toda hora, vai diz. Felipe – (sem ânimo) Eu te amo. Junior – Ai, eu adoro isso. Sim, agora me conte direito por que você está triste? Felipe – Nadinha, eu já falei. O único problema é que meu dinheiro nunca saiu, eu já estou liso a um mês, abusei meu curso na universidade, abusei dar aulas de teatro, abusei minhas amizades e to entrando meio em depressão. Ah, e to doido para morar sozinho. Abusei o pessoal lá de casa. Felipe – Oh, meu amorzão, fica assim não. Isso vai passar, você vai ver. Vai dar tudo certo para você. Eu sei que você é um bom ator, só nasceu no lugar errado. Em Teresina não vinga esse negocio de ser ator. Mas um anjo me diz que você vai conseguir um dinheiro e vai para o Rio de Janeiro e lá você vai conseguir ser um grande ator, e ator da globo. Algo me diz que isso vai acontecer o mais rápido possível. Aí quando você estiver ganhando muito dinheiro você manda me buscar. Felipe – Não sei, não. Junior – O quê que você não sabe? Se vai mandar me buscar, é? Felipe – Não, não é isso! Eu não sei se vou conseguir esse dinheiro para viajar. Eu não tenho nem dinheiro para lhe dar um presente hoje. Junior – Não se preocupe com isso. Sei que você está sem dinheiro. Felipe – Me fale como foi hoje no pré-vestibular? Junior - Ah, foi ótimo! Eu respondia todas as perguntas do professor de biologia e todo mundo ficava olhando para mim e babando com a minha inteligência na área da biologia. Esse ano eu tenho certeza que passarei no vestibular. Ai, eu amo biologia! Vou ser um grande biólogo, pesquisar tudo com bastante carinho e cuidado. Felipe – (Ainda desanimado) Espero que sim, que você passe e seja um grande biólogo. Junior – Ai, amor, que desanimo. Se alegra, vai! Hoje é nosso aniversário de namoro!(percebendo um potó no ombro.) Ai, meu Pai, um potó!(estraçalha o potó com um tapa.) Você viu, Felipe, o potó no meu ombro? Se esse potó tivesse mijado meu rosto eu nem sei que o que faria com ele! Sei lá! Eu acho que eu matava ele! Felipe – Mas foi isso que você fez. Você matou ele. Junior – Mas é claro! Eu não ia deixar ele mijar no meu rosto. Meu rosto é a coisa que eu mais prezo nesta vida. Felipe – Como que você pôde matar o bichinho só porque ele tava no seu ombro? Junior – Você queria que eu fizesse o que? Felipe – Era só tirar, devagarzinho, para ele ir para outro lugar. Não precisava dar esse tapa estraçalhando o bicho. Junior – Agora você vai brigar comigo por causa de um potó? Felipe – Não é só pelo potó. É por você também. Como é que você acabou de falar que vai ser um grande biólogo, que vai cuidar com carinho dos bichos e eu acabo de ti ver estraçalhando um. Isso não tem cabimento, sem falar que o bicho não te fez nada. Junior – Eu não falei que ia cuidar com carinho dos bichos, eu disse que ia pesquisar tudo com carinho, é diferente. Felipe – Mas para você ser um bom biólogo, você tem que gostar dos animais. Junior – Quem tem que gostar de animal é veterinário. Eu vou ser é biólogo. Felipe – Já vi que você vai ser um péssimo profissional. Junior – Você que é um péssimo profissional. Eu já fui assistir todas as suas peças e o que eu posso dizer é que você é péssimo ator. Eu só ia mesmo te assistir por causa do nosso namoro, por consideração, mas toda vez que você entra em cena eu morro de vergonha dos comentários das pessoas na platéia. Todos ficam dizendo que você é muito ruim. Felipe – Você sempre me disse que gostava das minhas peças, dos meus textos e que eu sou um ótimo ator. Junior – Eu mentia, eu sempre menti. Você é o pior ator que eu já vi na minha vida. Felipe – Você só ta falando isso por causa do potó. Junior – Eu não quero mais nem saber de potó. Eu quero que o potó se exploda, se foda, se estrepe, se estribuche ele e a família dele todinha. Meu negócio agora é com você. (debochado) Você não preferiu ficar do lado dele, defendendo o pobre bichinho, pois agora eu quero ver se ele vai ficar do teu lado, te defendendo. Eu duvido que ele vá ficar! Eu sei que ele sabe que em briga de marido e mulher, no caso da gente você é a mulher, não se mete a colher, sua passiva! E quer saber mais, eu pouco me importo com esse aniversário de namoro.(Levanta-se da mesa) Nesta mesa aqui você é o ator, mas é eu que atuo a 1 ano e 6 meses. Eu sempre fico fingindo sorrisos, voz mansa, finjo ser carinhoso, eu finjo até na hora do sexo. Eu detesto o teu sexo. Eu prefiro transar com uma geladeira! Deve ser por isso que eu sempre te coloquei chifres, deste o primeiro mês, ou melhor, deste a primeira semana, sim, desde a primeira semana que você é corno! Eu fiquei mesmo com um negão bem sarado e gostoso na nossa primeira semana de namoro. Você é um ator tão ruim que não consegue nem perceber quando uma pessoa está mentindo. Eu sempre menti! Felipe – Isso tudo por causa de um potó? Junior – Não, meu filho, tudo isso por causa de um pau, coisa que você não tem! Eu queria era um pau de verdade, por isso eu fiquei com o negão! Felipe – Fale baixo! As pessoas das outras mesas estão observando. Junior – Eu quero é que todo mundo escute, mesmo! (gritando) Ele tem o pau pequeno! O Felipe tem o pau pequeno! Eu fiquei com o negão e o pau dele era imenso, grande, esfolado! (Felipe pega o porta- lenço que está sobre a mesa e taca no nariz de Junior com toda a força fazendo-o cair.) Junior – (com o nariz sangrando) Por que você fez isso, seu inútil? Felipe – Prá você se acalmar. Junior – Você quebrou meu nariz, seu genoma! Pois agora você vai ver. (levantando-se) Ta vendo isso aqui na minha mão? Felipe – O que é isso? Junior – Isso aqui é uma passagem para o Rio de Janeiro, que eu comprei para dar para você hoje no dia do nosso aniversário de namoro. E você sabe o que eu vou fazer com isso agora? Felipe – (sem noção) Vai me dar? Junior – Olha só aqui o que eu vou fazer com essa passagem. (Junior baixa as calças e passa a passagem na bunda, depois disso rasga-a.) Junior – (sorrindo macabramente) Viu? Viu o que eu fiz com o teu sonho?(ainda sorrindo) Felipe – Junior, você não está normal. Por que você fez isso? Junior – Por que eu te odeio! Eu te odeio!(ainda sorrindo macabramente.) Eu to ficando louco! Eu sou o diabo! Felipe – Junior eu vou ligar para os teus pais. Você não ta normal. Eles precisam saber disso e sei lá, te internar. Você precisa de ajuda! Junior – Liga! Liga que eu to muito doido! (Felipe liga e um celular toca próximo a eles no restaurante. Aparecem vários amigos e parentes de Junior e Felipe no restaurante.) Todos – Surpresa! Felipe – Surpresa? Junior – (normal) Sim, Felipe, Surpresa! Eu combinei com todos da tua família e da minha também e convidei nossos amigos para fazermos essa surpresa e essa pegadinha com você e assim podermos te dar uma boa noticia. Felipe – Então você estava encenando? Junior – Sim, foi tudo uma pegadinha. Não vá acreditar nas coisas que eu disse. Até o potó foi uma farsa, ele não morreu, não. Ele estava encenando também e, diga-se de passagem, ele arrasou na atuação. (olhando para o potó) Arrazou, potó! Obrigado pela força! Felipe – Afinal, qual é a surpresa? Junior – Estamos milhonarios! Eu conferi aquele jogo da lotofácil que fizemos juntos e nós fomos os únicos ganhadores de 20 milhões de reais. Agora vamos poder nos casar na França. Eu já fiz nossas malas, convidei todos para nossa despedida aqui neste restaurante e nossas passagens de avião já estão marcadas para esta madrugada. Na volta ficaremos no Rio de Janeiro, compraremos um apartamento e você vai poder atuar na globo. Vamos, meu amorzão? Junior – Sim. Globo, aí vou eu.