sexta-feira, 27 de julho de 2012
TEXTO CURTO - AH, TÁ!
GEYSE - SOBRINHA DE 29 ANOS.
BALBINA – TIA DE 42 ANOS.
(Tarde de domingo. Tia e sobrinha chegam de uma bebedeira com mais quatro cervejas em mãos para terminar a folia na casa da própria sobrinha. Vão direto para a cozinha gargalhando e comentando sobre os acontecimentos do dia anterior. Elas sentam e abrem a primeira bebida.)
Balbina – Ai, que eu num “güento”!
Geyse – Eu também num “guento”!
Balbina – Mermã, mais lá tava bom demais.
Geyse - Tu acredita que a podre da Socorro veio pra mim e disse que o boy na festa de ontem queria era ela?
Balbina – Mentira!
Geyse – Verdade verdadeira! Ela disse que só não ficou com ele porque estava esperando você se decidir se ia querer ele ou não.
Balbina – Mas meu Pai! E eu já tenho até esse poder de decidir com que homem eu vou ficar! Pois pronto, eu num guento! Eita que eu to é podendo! Na verdade é que ele não queria ela mesmo, muito menos eu.
Geyse – (desconfiada) E quem é que ele queria de verdade?
Balbina – Hum, não se faça de sonsa, não. Pensa que eu não percebi? Ele dançava com a gente, mas ficava só de olho na senhorita. Ganhou o boy, hein, querida! Vi até vocês conversando em alguns momentos.
Geyse – Eita, mais tu não perde uma, hein?
Balbina – Mas é claro, querida! Não perco mesmo! E aí, me conta o que há?
Geyse – Nada, só conversamos mesmo normal.
Balbina – Humm!
Geyse – Marcamos de nos encontrar amanhã à noite. Ele até que é legal! E tu viu, mermã, como ele é altão?
Balbina – Ai, deve ter um pau enorme.
(As duas gargalham.)
Balbina – Mermã, mermã! Eu já estou é bêbada.
Geyse – Vamos beber só essas quatro e pronto, aí a gente vai dormir e a noite a gente sai de novo para beber mais.
Babina – Ai, que eu num guento! Acaba não mundão!
(As duas se abraçam ainda sentadas nas cadeiras e gargalham. Já estão na segunda cerveja e bastante bêbadas.)
Geyse – Ai, que eu te amo, minha tia!
Balbina – Eu também te amo, minha prima cachaceira.
Geyse – Olha, não vai se esquecer que quando a gente acordar a gente vai lá para o bar do Zuca, viu?
Balbina – E tu acha que eu esqueço cachaça. Onde tem cachaça eu to no meio. (risos) Sim, tu viu, mermã, a Malu votou naquela candidata que a nossa família toda detesta. E ela é minha sobrinha e tua prima, como que ela pode fazer isso com a gente? To decepcionada.
Geyse – Ah, Balbina, mas não tem nada haver isso aí! O voto é livre e ela pode votar em quem ela quiser, mesmo que a família toda vote no candidato que a gente votou.
Balbina – Mas mermã, como é que ela pôde votar naquela candidata se a família toda trabalha na prefeitura do nosso prefeito. E se ela perder o emprego, como é que ela vai ficar, hein, bonita?
Geyse – É, você tem razão, mas eu gosto dela e eu apoio a decisão que ela tomou.
Balbina – Deixa de ser babona, Geyse. Tú também trabalha na prefeitura. Tu tem que babar é o nosso prefeito. Se ele souber que ela votou na oposição ela vai perder é o contra-cheque dela e se souberem que tu anda defendendo ela, tu vai perder o teu também.
Geyse – Ave, e agora eu não posso mais nem abrir minha boca pra falar dessa prefeitura daqui. Eu mesmo que não vou babar prefeitura nenhuma. Eu trabalho para esse prefeito, mas o salário ta atrasado, as ruas estão um caos, nada aqui está prestando.
Balbina – E o dinheiro dessa cerveja que tu ta bebendo vem da onde, hein? Da prefeitura, querida! Se tu ta achando ruim trabalhar lá, então sai.
Geyse – Eu não vou sair não! Pelo que eu to vendo tu que é babona desse prefeito.
Balbina – Do prefeito, não! Eu sou babona do meu trabalho. Eu não sou burra de trabalhar num lugar e votar para outro. Só sendo doida, mesmo! E a Malu foi muito foi burra mesmo. Se ela perder o emprego dela eu não vou dizer nada.
Geyse – Mermã, num fala assim dela, não! Tu ta sendo arrogando demais.
Balbina – Mas é verdade mesmo. Ela foi muito foi burra! E se o candidato dela perder, hein, ela vai se lascar todinha!
Geyse – Ah, mas ela tem as coisas dela. Ela é formada, é professora e eu já estou quase terminando meu curso e vou ser professora também. Se nós sairmos de lá a gente tem para onde ir, agora tu não. Tu não tem nem o ensino médio completo e trabalha como zeladora. (Batendo nos peitos) Eu sou professora.
Balbina – Deixa de ser babona da Malu, Geyse! Só porque ela tem carro é? Tu fica falando que vocês duas são professoras, mas o salário de vocês tão atrasado 3 meses, enquanto o meu nunca atrasou esse tempo todo que eu trabalho na prefeitura. Tu é muito é babona dela mesmo!
Geyse – Ta atrasado porque a droga desse prefeito não presta, ele é um escroto!
Balbina – Não fala dele assim, não, mulher!
Geyse – Eu falo. Tu num ta falando da Malu?
Balbina – Eu falo dela mesmo. Ela é uma traíra da nossa família e do nosso prefeito. E tu é uma babona.
Geyse – Teu problema é que tu só quer ser a dona da razão. Quer sempre ficar por cima dos outros. Não aceita a opinião dos outros. Mas nós somos professoras!
Balbina – E o meu salário ta em dias. E quem pagou essas cervejas todas que tu bebeu hoje foi o meu salarizim de zeladora, sua babona da Malu.
Geyse – Ah, mermã, tu só quer dá a ultima palavra. Acho melhor tu calar a tua boca!
Balbina – Tu que tem que calar essa tua boca!
Geyse – Tu que tem que calar!
Balbina – Vamos ver quem vai calar aqui.
Geyse – Tu que tem que calar!
Balbina – Ah, ta!
Geyse – Ta!
Balbina – Então ta!
Geyse – Então ta!
Balbina – Ah, ta então!
Geyse – Ta!
Balbina – Ta! Ta!
Geyse – Ta! Ta! Ta!
Balbina – Ta!Ta!Ta!Ta!Ta!
Geyse – Então ta!
Balbina – Ta!
Geyse – Ta vendo como você só quer dá a ultima palavra. Vai se fuder!
Balbina – Não manda eu me fuder que eu sou sua tia!
Geyse – Vai se fuder!
Balbina – Olha que eu dou um tapa na tua cara!
Geyse – (batendo com o casco da cerveja na mesa, sem quebrá-lo.) Pois dá! Dá!
Balbina – Menina, o que é que tu tem? Tu ta é doida é? Tá é possuída?
Geyse - (ainda batendo com o casco da cerveja na mesa, sem quebrá-lo.) É tu, Balbina, que só quer ser, só quer se aparecer, fica aí falando dos outros. Olha aqui prá ti. (dando o dedo para ela.)
Balbina – Menina, tu ta é doida é! Oh, aqui prá ti! (faz gestos com o braço, dando banana para ela.)
Geyse – (levantando-se zangada com o casco na mão.) Tá vendo, tu só quer ter razão, só quer ser melhor que os outros. A gente faz uma coisa e tu quer fazer uma maior.
Balbina – É tu que é babona, abestada, babona mesmo! Fica do lado dela, vai, fica! Babona! Olha aqui o que tu mereçe, sua abestada. (dá mais uma banana para ela.)
Geyse - Mermã, não me dá banana, não!
Balbina – Dou, porque é isso que tu merece, sua banana!
Geyse – Pois olha aí o que tu merece! (joga a garrafa na cabeça da Balbina que desmaia sangrando.)
(Noite. Balbina, com um curativo na cabeça, volta do hospital, encontrando-se com Geyse na porta de casa.)
Balbina – (sorridente) E aí, bonita! Que cachaça foi essa?
Geyse – Não sei, mermã!
Balbina – E então, vamos sair?
Geyse – Vamos. Eu tava só te esperando.
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