sexta-feira, 27 de julho de 2012

TEXTO CURTO - A LUZINHA

(20:30. LENA E LUÍS SOBEM EMPOLGADOS EM UM ÔNIBUS INTERMUNICIPAL PARA UMA VIAGEM. SENTAM-SE EM POLTRONAS LADO A LADO) LUIS – Estou doido para chegar logo. Me disseram que a cidade é linda! LENA – Me disseram também que é uma viagem muito cansativa, pois só de ônibus são 11:00 de viagem. Meus pés vão ficar inchados. Então é melhor a gente apagar essa luzinha aqui em cima das nossas poltronas e dormirmos até chegar lá.(APAGA A LUZ) LUIS – Tu tá doida! (ACENDENDO A LUZ) Deixa de frescura, Lena, pois a bicha aqui sou eu. (RIEM) Nós vamos é conversar. Vamos, me fala, como anda teu namoro? LENA – Está ótimo. Pense num nêgo bom de cama. E ainda por cima é super carinhoso. Ai, amiga, se melhorar estraga. LUIS – Humm, já vi que esse negócio vai longe. Homem bom de cama e carinhoso hoje em dia é coisa rara. Tá para nascer outro. Fiquei até com uma invejinha branca da senhora. LENA – Mas não fique não, pois a senhorita já tem o seu namorado, não tem? LUIS – E desde quando bicha namora. Bicha se enrola, se enrosca, se lasca. (riem) Ai, não nasci para namoro. Terminei, sabe! Enjoei! Peguei ele me traindo dentro do guarda-roupa com minha irmã. LENA – Mentira! LUIS – Verdade verdadeira. LENA - Mas o Roger não é bicha? LUIS – É mermã, mas é daquelas bichas doidas que não sabem o que quer. Além do mais minha irmã tem espírito de rapariga, na verdade ela é rapariga mesmo. Não dispensa nem bicha. Oh mania besta essa de rapariga querer ficar com bicha. Parece que elas querem provar para as bichas que podem transformá-las em homens. Humm, me dá um nojo! LENA – E você fez o quê com eles? LUIS – Nada demais! Só dei um tapa na cara dela e uma dedada bem no meio do olho do cú dele. (RIEM) LENA – Fala baixo, seu diacho. O povo pode escutar. LUIS – Escuta nada, já estão todos dormindo. Lena, tu trouxe algum biscoito aí na tua mochila? To morrendo de fome. LENA – Trouxe. Pega aí, já que tu está na poltrona do corredor. Tá aí em cima. (LUIS SE LEVANTA, PEGA A MOCHILA E SENTA-SE NOVAMENTE. ELE ACENDE A LUZINHA QUE FICA ACIMA DAS POLTRONAS PARA PODER ENXERGAR MELHOR.) Encontrou? LUIS – Tá aqui. Humm, de chocolate, hein? Só lembrando do negão! LENA – Abestado. LUIS – Quer um? Se você quiser eu te dou do meu biscoito de chocolate do negão? LENA – Deixa de ser besta, seu besta! E é claro que eu quero, já que o biscoito é meu. LUIS – Agora é nosso. (COMEM) Sim, qual foi o roteiro que você fez para o nosso passeio lá na cidade? LENA – Quem tá preparando o roteiro são os meus primos. Conhecendo eles como eu conheço dá até para adivinhar o roteiro: bar, riacho, peixe assado e muita música. Vou te apresentar vários boys primos meus, viu Luís! LUIS – Comecei a gostar! Quero um bem gato e gostoso que me pegue de jeito e me chame de Beyonce. (RIEM EXAGERADAMENTE. UMA MULHER QUE ESTÁ SENTADA NA POLTRONA DA FRENTE SE INCOMODA.) Mulher – Dá para apagar a luz? (Os dois fingem que não escutam.) Dá para apagar a luz agora? Eu estou falando com vocês. Apaguem essa luz! (LUIS APAGA. SILÊNCIO POR ALGUNS MINUTOS.) LUIS – (FALANDO BAIXINHO) Meu Pai! Por que mesmo que eu apaguei esta luz, hein, Lena? Oxe, essa luz é nossa. Nós pagamos as nossas passagens estamos sentados em nossas poltronas e acendemos a luz que está em cima das nossas cabeças. Aí vem uma mulher metida a rica e fina e manda a gente apagar a luz e a gente apaga. Que diacho é isso!? Meu Pai, que raiva! Eu tenho raiva é que na hora que acontece essas coisas eu fico parado, anestesiado e não consigo dizer nada. Ai, que raiva de mim! LENA – Eu também fico anestesiada. Minha irmã, se estivesse aqui, na mesma hora teria uma resposta na ponta da língua para essa mulher. LUIS –Eu to fervendo por dentro. Ela falou isso não foi por causa da luzinha que estava incomodando, não. Ela falou isso é porque a gente tá conversando aqui, feliz e ela deve tá incomodada. Ela não pediu para a gente apagar a luzinha, Lena;ela mandou e a gente obedeceu. Ela tava ouvindo nossa conversa e se incomodou. Ai, que raiva, que ódio, que tudo de ruim eu to por dentro. Eu acho que vou explodir de raiva! _Apague essa luz. (imitando a mulher) Que ódio! Eu podia não ter apagado. LENA – Deixa isso para lá, vai, Luís. Vamos dormir que é melhor. Todo mundo no ônibus já está dormindo. LUIS – Deixa ela, deixa. (LENA SE VIRA PARA UM LADO E TENTA DORMIR. LUIS FICA PENSANDO.) Essa mulher vai me pagar. Olha ela, olha. Ajeitando o cabelo como se nada tivesse acontecido. Mas deixa ela, deixa. Eu só quero que ela acenda essa luzinha dela, agora. Deixa ela acender que ela vai ver, deixa. Eu não durmo enquanto ela não acender essa luz. Eu não vou dormir. (LENA DORME A HORAS E LUÍS JÁ ESPERA A BASTANTE TEMPO, ATÉ QUE A MULHER ACENDE A LUZ. LUÍS LEVANTA-SE COMO QUE AUTOMATICAMENTE.) Pode apagar essa luzinha agora mesmo! MULHER – O que? LUIS – Isso mesmo que a senhora ouviu. Pode apagar essa luzinha agora mesmo, pois ela está me incomodando. (LENA ACORDA) LENA – O que está acontecendo? LUIS – Essa mulher que acendeu a luz e me incomodou. Eu estava dormindo aqui na minha poltrona e ela acendeu a luz e me acordou. Mulher – Mas eu vou pegar algo em minha bolsa. Além do mais a luz está sobre minha poltrona, portanto eu posso liga-la. LUIS – Ah e pode? Então quer dizer que a nossa a gente não pode acender e a sua a senhora pode? Ou a senhora é dona de todas as luzes que estão neste ônibus? Só pode ser, pois quando acendemos a nossa luzinha a senhora MANDOU a gente apagar. Nem sequer fez questão de pedir um favor, mandou logo foi apagar. Agora pode apagar a que está em cima da sua poltrona, pois ela está me incomodando, sua mal educada. Tá pensando que é o que? Que é rica, fina? Se fosse rica não tava aqui andando de ônibus, tinha mesmo era fretado um carro. E ainda quer mandar nas luzinhas dos outros. Se eu e minha amiga pagamos passagens, nós temos o direito de apagar e acender a luzinha a hora que a gente quisesse, mas o seu problema não era com a luz e sim com nossa conversa, não era? A senhora não tem um negão, não é? Nem biscoito do negão, não é?A senhora não é feliz! A senhora não tem um macho para a senhora. Tá com inveja porque minha amiga tem um negão para ela e a senhora não tem nenhum e fica querendo acabar com a felicidade alheia. Aposto que nem rica é. Deve tá passando fome. MULHER – Eu vou chamar o motorista se você não calar essa sua boca. LUIS - Pois chama. Pode chamar. MULHER – Olha só o que você já fez! Acordou todo mundo! Que vergonha. LUIS – E eu to lá me importando! Eu quero mais é que todos acordem mesmo. Agora a senhora tá com vergonha, não é? Mas na hora de MANDAR aqui em mim e na minha amiga, deixando a gente envergonhado e sem ação, você não ficou com vergonha, não foi? MULHER – Eu vou chamar o motorista. (SAI) LUIS – Pois vai! Vai logo, vai. LENA – E agora, Luis? Ela vai chamar o motorista. LUIS – Deixa ela, deixa! Deixa que eu já to louca, pior que a Shakira! (UM DOS MOTORISTAS VEM ACOMPANHANDO A MULHER ATÉ OS DOIS AMIGOS.) MULHER – É esse aqui, seu motorista, que esta me ofendendo só porque eu acendi a luzinha para pegar algo na minha bolsa. Ponha ele para fora do ônibus agora. LUIS – Me por para fora do ônibus! A senhora está completamente louca. Quem deve sair de dentro deste ônibus é você, sua vagabunda! MULHER – Está ouvindo, seu motorista, como ele está me ofendendo. MOTORISTA – O que é isso, rapaz! Assim vou ter que te tirar de dentro do ônibus. LUIS – Oh meu amor, se tem uma pessoa que tem que sair de dentro deste ônibus é essa ladrona que está do seu lado. Sabe por que? Tá vendo esse senhor dormindo aqui do lado da poltrona dela? Ele está drogado! MOTORISTA- Drogado? LUIS – Sim. Enquanto esta mulher pensava que todos estavam dormindo, eu fiquei só observando ela oferecendo para ele um comprimido para dor de cabeça. Depois disso ele dormiu profundamente e ela roubou todo o dinheiro que havia na bolsa dele e colocou na própria bolsa. Ela tá cheia de comprimidos para dormir e de drogas na bolsa, sem falar no dinheiro que ela roubou dele. Podem verificar se quiser. MOTORISTA – Minha senhora, isso é verdade? MULHER – Claro que não. LUIS – Claro que é. Olha aqui.(tomando a bolsa da mulher e tirando tudo de dentro.) Estão vendo como ela tá cheia de remédios e de dinheiro.) MULHER – Mas isso é tudo meu e do meu pai que está aqui dormindo. Eu dei o remédio dele para ele poder dormir, já que ele sofre de insônia. LUIS – Mentirosa! (DÁ UM TAPA NA CARA DELA.) Ele nem é seu pai. Vamos, seu motorista, tire essa ladra de dentro do ônibus que eu não quero viajar com pessoas assim. MOTORISTA – É, minha senhora, acho que a senhora terá que se explicar com a polícia. MULHER – Deixa eu acordar meu pai aqui e vocês verão quem é realmente o mentiroso desta história. (ELA TENTA ACORDAR O SENHOR DO LADO, MAS ELE ESTÁ DOPADO E CONTINUA A DORMIR.) LUIS – Tá vendo como ela dopou ele? (DÁ OUTRO TAPA NELA.) Como é que pode, fazer um negócio desses com um idoso! Crie vergonha. Opa, ei seu motorista, nossa parada é a próxima. Precisamos descer. Vamos Lena. Cuide dela, viu seu motorista. Não deixe ela sair, não. (ÔNIBUS PARA. LUIS E LENA PEGAM SUAS MOCHILAS E DESCEM DO ÔNIBUS.) LENA – Luís, estou toda me tremendo. Nós estávamos sentados próximos a uma ladra. O que aconteceu com aquele senhor poderia acontecer com a gente. LUIS – Lena, acho melhor a gente sair correndo. Daqui a pouco o pai da mulher acorda e vai sobrar pra gente. LENA – O que? LUIS – Rumbora, mulher, que o mentiroso aqui dessa história toda sou eu.

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