sábado, 28 de julho de 2012

DESCONHECENDO-SE (CRÔNICA)

E complexamente, ou simplesmente, ele caminhava sem entender o que se passava em sua cabeça: eram pensamentos estranhos numa noite mais estranha ainda que a escuridão que havia em sua mente. E ele, ele caminhava desconfiado de si. Resolvera que iria ser diferente, nem tanto porque quisera, e sim por conta do sistema que o incentivava, lhe obrigava, enlouquecia-o! Ele não era nada daquilo que sempre demonstrou ser e seus falsos princípios foram vencidos por não conseguir mudar todos aqueles e aquilo que ele tentou penetrar, convencer de que suas teorias eram certas... (incertas teorias) Ele se julgou vencido, desestimulado, acabado; mas não tão assim, a ponto de chegar frente a um bar e pedir uma cerveja, sabor nunca antes apreciado, e bebê-la, tomá-la, engoli-la, chupá-la com tanto sabor amargo de fracasso. E seus pensamentos girando inconformados de não-razões, de falsos entendimentos, de não compreensões do mundo, de si, da vida... E quanto mais ele pensava, mais ele bebia para esquecer suas ideias e aquele gosto amargo da cerveja que diziam ficar doce depois do quarto copo. - Um cigarro! Pediu ele, tomando como exemplo um amigo que adorava carlton, para ver se sua amargura e solidão não entendível passavam, mas até ali não passavam. Era uma vontade de sorrir, de gritar, de pular, de derrubar todos aqueles cascos de cima da mesa, derrubar todas aquelas cadeiras e mesas que estavam à sua frente e depois correr, correr sem destino... Só que ele estava preso, preso dentro de si, sozinho, sem ninguém para lhe escutar, sem ninguém para ouvir suas verdades tão falsas por tanto escondidas (ocultas). - E ele bebe? E fuma? - diz um conhecido desconhecido, ao vê-lo. - Sim! Eu bebo e fumo! Desde sempre! Vocês não me conhecem. Nunca me conheceram. Nem eu me conheço... Nem eu. E o conhecido desconhecido se vai desconhecendo o conhecido. Já eram seis cervejas, agora embaixo da mesa, postas pelo garçom; uma ainda pela metade em cima e cinco cigarros a menos na carteira. Ele já estava embriagado, talvez nem tanto da bebida e sim do espaço, do tempo em que vive, dos “amigos”, da mente que há tempos mentia... Paga-se a conta. Nos bolsos da bermuda: o celular e os cigarros; na mochila: a carteira com o pouco dinheiro que sobrara, por desconhecer o preço de uma noite solitária; na cabeça: sonhos inacabados, inacabáveis... Em seu caminhado, costurando ilusões nas ruas do Piauí, de Teresina, do centro da cidade, na Frei Serafim, ele vai... Vai em busca do nada e do tudo, do todo repartido em nada. Complexamente, ou simplesmente, ele vai caminhando na avenida sorrindo... Sorrindo por ter sido, por uma noite, o que nunca foi e o que nunca gostaria de ser; sorrindo da sua desgraça aliviadora; sorrindo bêbado da noite sem luz e sombria que lhe assolava os olhos castanhos sem brilho virados para o alto; sorrindo do banco de madeira que lhe aguardava naquele momento (1:38 h.), em plena Frei, onde deitou-se para aliviar o cansaço das pernas curtas, do corpo, do espírito. E ao encostar-se na cama improvisadamente desconfortável, vieram mais sorrisos, sorrisos de sono, de dor, de sucesso por uma noite cheia de fracassos questionados, sorrisos de não-sei-quem-sou, sorrisos de um desconhecido: eu. E por fim, ele dormindo ali, sozinho, abraçado por aquele banco que tem por pretensão lhe proteger na vaga noite escura, que pretende fazê-lo descansar e sonhar... Sonhar com o quanto foi bom se conhecer desconhecendo-se. Autor: Jean Pessoa (Em homenagem a Cléverson Rodrigues)

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