segunda-feira, 6 de agosto de 2012
MINHA TIA
10 anos de idade. Minha mãe me levou para visitar minha tia Maria, lá no Rio de Janeiro. Conheço muitas Maria´s, mas essa era Maria Lúcia. Minha mãe me contou que minha tia Lúcia foi embora porque seu grande amor havia se casado com outra mulher e que com isso minha tia ficou muito triste e chorou por vários dias até decidir ir embora para o Rio. Minha tia trabalhava o dia todo enquanto seu marido e sua única filha ficavam em casa. Ela era doméstica e chegava sempre no final da tarde muito cansada. Lembro que toda vez quando ela chegava em casa, ela ia até o quarto trocava de roupa e passava direto para a cozinha para fazer a janta que também já ficava para o almoço do outro dia. Enquanto a janta estava no fogo ela aproveitava para limpar a casa. Eu não entendia por que sua filha e o seu marido ficavam parados! Uma noite ela chegou e não aguentou fazer nada, somente deitou na cama. Ela disse que estava com dor de cabeça e dor nos pés. Eu falei para ela que sabia fazer uma massagem nos pés e perguntei se podia fazer nela para ver se ela melhorava do cansaço e das dores. Meio sem jeito ela disse que sim. Minhas mãos pequenas percorriam as histórias que aqueles pés já haviam vividos. Às vezes ela sentia pequenas dores quando eu a tocava. Ela ficava a maioria do tempo com os olhos fechados.
_Tia! Posso lhe fazer uma pergunta?
Ela abriu os olhos.
_Pode.
_Mas eu gostaria que a senhora me falasse a verdade.
_Tá bem. Eu falo.
_ A senhora é feliz?
Ela me olhou nos olhos com seus olhos cor de mel. Deu um pequeno sorriso meio sem jeito. Demorou um pouco a responder.
_ Nunca fui.
E chorei junto com ela.
quinta-feira, 2 de agosto de 2012
LÁ TE MÚSICA, VÓ?
7 anos de idade. Da morte eu só sabia que colocavam a gente dentro de uma caixa grande e que a gente ficava lá sem poder sair, tudo escuro, embaixo do chão, sem poder respirar. Isso me assustava toda vez que eu pensava! E quando eu pensava demais na morte eu chorava, chorava, chorava até ficar vermelho e minha avó vir me consolar. Minha garganta doía. Ninguém mais conseguia me acalmar a não ser minha avó, também chamada Maria. Ela sentada na cama da minha mãe, colocava minha cabeça em suas pernas e passava suas mãos já cansadas em meus cabelos:
_ Não chore, meu filho. Não tenha medo da morte. Meu filho ainda é novo e isso ainda vai demorar. Quando chegar sua hora você vai só dormir, Deus vai pegar na sua mão e vocês vão brincar lá no céu.
_ Lá tem música, Vó?
_ As suas prediletas.
E eu acabava pegando no sono ela cantando uma canção de ninar.
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